terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Publicação da monografia

Durante o ano de 2008 eu realizei meu TCC em moda na faculdade Santa Marcelina.
O trabalho incluiu uma grande parte teórica, com o desenvolvimento de um pensamento que desse base para a coleção prática.
Procurei fazer um trabalho que ligasse processo criativo e teoria.
Escrevi textos que funcionam através de uma idéia contínua, mas que também podem ser lidos separadamente. Achei que pode ser interessante disponibilizar eles no blog, por tratarem de temas que estão frescos e podem servir para quem quiser ler.

Movimento e Reconstrução - A calça, a saia e a mulher


As coisas estão em movimento.
A vida não pára de gerar transformação. O que está vivo se transforma. E o que não está é submetido a movimento.
A relação entre objeto-roupa e a pessoa que veste é total. Existe uma ligação física entre as duas coisas: a roupa se transforma quando em contato com a pessoa. A pessoa se transforma quando em contato com a roupa. Isso se faz também através do tempo. A cada dia o corpo humano se transforma, logo o contato dele com a peça muda. Os sentimentos mudam, a moda muda. O tempo muda. As razões e as motivações que levam determinada pessoa a escolher determinada peça vão se re-significando.
A peça de roupa pode ser pensada para estar “aberta” a interferências. Basta que quem a olhe e coloque esteja atento e aberto para esse entendimento. Nesse momento cria-se um namoro entre a roupa e a pessoa que vai vestir: o resultado não está em um ou em outro, mas sim no meio, no que há entre, na relação. Para isso é necessário um quê de abertura na criação. A peça tem que dar margem a novas possibilidades; a pessoa que veste tem que exercitar essa escuta, essa capacidade de ação. Essa abertura é a parte que falta para que a coisa se feche, que se faz no encontro.
O amor existe por causa da falta – O incompleto abre-se para a busca pelo encontro. Nos vestimos também por isso – Para dar “voz” /sentido àquilo que “falta” em nós – para sermos assim vistos/compreendidos, para expressarmos essas mudanças que nos ocorrem todo o tempo. Não existe o eu completo – senão, não precisaríamos nem usar roupas (uma necessidade básica que liga todos os seres humanos) – existe o eu em transformação em busca do outro, em busca de si mesmo. A moda nos ajuda muito nesse sentido.
Existe a possibilidade de uma atitude criativa em relação à roupa.
O caminho da moda feminina no último século foi conquistar a expressão livre da vontade humana.
A modelagem da calça (2 partes juntas) lembra um casaco (2 braços). Uma calça pode virar um vestido? uma blusa? um macacão? Por que não tentar pensar na conciliação? Na roupa que se transforma com a vida.
Isso sugere possibilidades em aberto. Sugere estilos que podem se completar dependendo de quem vista.
Para que essa transformação aconteça a calça deixa de ser cem por cento calça. Ela se parece com uma saia, se parece com um vestido. Ela está sujeita a nomes que não conseguem enquadrá-la diretamente, ela é um pouco de muita coisa, e ao mesmo tempo nada exatamente. Ela está aberta a ser o que quiserem que seja. Um pouco de mulher livre e conquistadora de liberdade de expressão e ações masculinas (mulher de calça), um pouco elegante, antiga, feminina, confortável (saia longa).
Ser feminina e ser masculina. Amplitude de tecidos, vontade de ficar à vontade, vontade de ficar elegante, vontade de mudar se preciso. Ares de mulher cem por cento vestida em tecidos masculinos. Ares de outros tempos. Vontade de se transformar, de ir além do que se é. Se transformar mesmo sem vontade, porque essa é a condição da vida.

1 Roupa forma, Roupa função, múltiplas formas e funções.

A forma e a função das coisas estão diretamente ligadas. Designers estudam a melhor maneira de conciliá-las, fazendo com que uma favoreça a outra. Isso se aplica aos mais diferentes objetos criados pelo homem, por exemplo, a forma de um telefone se adapta ao rosto, ligando o ouvido (escuta) e a boca (fala). A forma de uma cadeira permite que a bacia se acomode, que as pernas encostem no chão, e que a coluna fique ereta, com apoio.
A modelagem básica das roupas surge por conta da necessidade do corpo que elas vão vestir: A calça tem lugar para que as duas pernas entrem. A abertura na região dos quadris possibilita e entrada e saída da peça no corpo. Há uma abertura final para que os pés possam estar livres. Existem muitos modelos de calça, como por exemplo capri, pantalona, skinny, cargo, big, boca-de-sino, Saint-tropez. No entanto eles variam em tudo, menos naquilo que é a estrutura inicial. Naquilo que faz com que a peça se chame calça. Pois a função dela é vestir a parte inferior do corpo humano, definindo separadamente as pernas.
Determinadas formas podem lembrar outras, pela suas funções, ainda que de maneira inexata. Por exemplo, as duas passagens das pernas da calça podem lembrar as duas mangas de um casaco, ou de um vestido. Essa adaptação não se faz de maneira perfeita, afinal braços e pernas tem comprimentos e espessuras bem diferentes. No entanto essa imprevisibilidade, essa transferência de forma e função pode gerar novas combinações surpreendentes a um pensamento lógico. O deslocamento estrutural pode gerar um elemento surpresa que traz novidade para aquela silhueta, uma novidade de estilo.
Muitos estilistas vem trabalhando a desconstrução de peças de roupa desde a década de 80. Sigo esse caminho para investigar o deslocamento de formas e funções em peças com o intuito de encontrar várias formas de uso na mesma peça, e também de encontrar formas mais imprevisíveis, inusitadas, não imaginadas em um primeiro momento. Para que isso ocorra, é necessário que a roupa esteja sujeita a transformações. Isso pode ser facilitado através de aberturas, de abotoamentos, de recortes que ajudem as transposições.
A tecnologia hoje caminha para a compactação de muitas funções em o mínimo possível de objetos. Celular que é Ipod, computador e câmera fotográfica. Impressora que é scanner, fax e telefone. Shampoo que é condicionador. Na moda isso também pode acontecer. Isso pode facilitar o dia-a-dia do homem moderno, que está sujeito a “muitos personagens” e a muitas situações em um curto espaço de tempo. Além das mais variadas intempéries climáticas.
No entanto, para que isso ocorra, é necessário uma dose de ação criativa de quem veste a roupa para se relacionar com a possibilidade de transformação. A roupa que nunca está terminada, sempre está sujeita a uma outra possibilidade, a uma nova transformação.
Tenho como objetivo investigar a idéia com duas finalidades: uma a de pensar roupas que de fato possam ser usadas de várias maneiras, e a outra pela investigação pura e simples de forma e função, que pode gerar uma modelagem inusitada, uma peça diferenciada em si.

1. 1 Construção – Desconstrução – Reconstrução de Roupas

Até a década de 80, a tradição ligada à moda européia, principalmente a alta-costura, era a da construção perfeita das peças, do requinte no acabamento exato e cuidado, da modelagem desenvolvida para uma construção perfeita de roupas. Esses eram os padrões de excelência em moda. No entanto, alguns grupos e estilistas começaram a investigar e a propor a desconstrução de roupas, deixando alguns acabamentos em aberto propositalmente, abrindo peças de maneiras inusitadas, para que novas formas pudessem surgir. Essa era inclusive uma forma de contestação em relação à moda que se praticava até então.
Na primavera de 1983, houve um estrondoso abalo na forma de se fazer moda, com a aparição de alguns jovens japoneses: Rei Kawakubo, Yohji Yamamoto e depois Issey Miyake, que afirmaram um estilo completamente novo que rompia com o consenso em vigor. Vera Gertel, em uma matéria chamada “Revolução na Moda” para a revista Desfile, escreve o seguinte: “E o resultado foi o aparecimento de roupas cujos panos são trabalhados, cortados, recortados, amarrados, originando formas amplas, longas, bizarras, inventaram o look pobre ou rico miserabilíssimo, que entrou em forte contraste com a busca de luxo e requinte dos estilistas ocidentais.”
Depois do choque, a moda começou a absorver essa nova linguagem que se aprofundava. Tanto com o desenvolvimento do trabalho e da linguagem de cada um desses estilistas (que até hoje são revolucionários pela maneira como pensam e propõem o vestir, dando a ele novos significados) como pelo surgimento de novos estilistas que coincidentemente ou não começaram a investigar a desconstrução de roupas.
Nome fundamental, Rei Kawakubo é descrita como “Arquiteta do vestido, desconstruindo a roupa para reconstruí-la melhor, inovadora em tudo” , por François Baudot, e suas criações definidas como “As roupas estranhas, não convencionais, desestruturadas, amassadas e rasgadas trouxeram um novo conceito, geraram polêmica, influenciando inúmeros outros estilistas e praticamente estabelecendo os rumos da silhueta adotada nos anos 80.” Rei Kawakubo é referência em todos os sentidos: pensamento sobre forma de loja, trilha sonora, desfile, casting, temáticas e principalmente criação e modelagem. Não é à toa que é tida por muitos estilistas como guru máxima e seus desfiles mobilizam e influenciam todos os que pensam e fazem moda no mundo.
“Issey Miyake. (...) Não compactuando com os mesmos princípios de corte das roupas ocidentais, que procuram modelar o corpo tridimensionalmente, preferiu adotar a técnica japonesa da confecção do quimono, que corta o tecido no plano e não elimina as partes excedentes, aproveitando-as como um prolongamento sugestivo de conforto e despojamento. Ficou conhecido por contestar, pesquisar, questionar e estar sempre à procura de novos caminhos para a indumentária.” Definido dessa maneira pelo dicionário da moda, Miyake foi pioneiro em pensar roupas que pudessem se transformar. Criou o tubo sanfonado que podia ser colocado como vestido, gola, casaco, etc. As suas relações entre forma e função sempre estiveram ligadas a conceitos muito fortes que norteiam cada uma das suas coleções.
Um dos nomes ocidentais pioneiros na pesquisa da desconstrução é Martin Margiela, descrito pelo dicionário da moda como: “Um dos representantes do movimento de desconstrução na moda, o seu trabalho é caracterizado por uma apreciação poética da imperfeição, do não conformismo e da excentricidade. Ficou conhecido por seu estilo provocador, fazendo casacos com quatro mangas, cortando bainhas no fio e deixando-as inacabadas, colocando mangas maiores do que as cavas, com conseqüente sobra de tecido, costurando bolsos em lugares inusitados e prendendo sua etiqueta em branco por apenas quatro pontos de linha.” E por François Baudot como “Teórico, homem de laboratório, seu laconismo e sua singularidade incomodam. Costuras aparentes, ourelas com debruns, cores vivas, desconstrução sistemática e reinvenção permanente: suas silhuetas, que parecem predizer um novo futuro para a roupa, revelaram um dos grandes talentos da sua geração”.
Com a revolução gerada por esses estilistas, e por outros que deram continuidade, que seguiram a trilha aberta por eles, a moda nunca mais foi a mesma. Hoje, essa idéia já foi totalmente absorvida pela moda, e faz parte da criação de muitos estilistas pelo mundo.
Na faculdade somos convidados a pensar desconstrução desde o início do curso. Por ser essa uma boa maneira de exercitar o olhar para o imprevisto, para o que não pode ser criado racionalmente, para que o repertório de possibilidades existenciais em cada peça de roupa possa se ampliar.
Em seu livro “Produção Estética” Rosane Preciosa apresenta no poema “Viés do tecido” um trecho que corresponde profundamente a essa idéia:
“(...) E não será esse o trabalho da nossa sensibilidade:
desfazer formas abrindo alas para tantas outras.
Desejar que as formas vibrem e nos surpreendam.
Olhar uma roupa pensando em mil outras conexões (...)”
Dessa maneira, quando nos propomos a encontrar novas formas em uma mesma peça, abrimos espaço também para que o inconsciente nos ajude no processo criativo, com o elemento imprevisto, inesperado. Olhamos as formas de outro jeito em relação ao corpo. “É preciso ter coragem para resistir à tentação de não nos deixarmos capturar pelas formas prontas para vestir, formas dominantes, homogêneas, serializadas, reprodutíveis. É preciso ousar para não sair apenas recauchutando a subjetividade, o que significaria ir apenas reacomodando tudo no mesmo lugar”.
Assim, a criação que parte da desconstrução torna-se reconstrução, baseada em formas antigas, mas que agora apenas lembram peças que foram, e tornam-se novas. Carregadas de sentido criativo e re-significadas por um novo olhar.
Quando desconstruímos e reinventamos roupas antigas, de brechó, de família, de outros tempos, através da descoberta de novas maneiras de usá-las, as trazemos para o presente, para o novo. Damos novos sentidos às peças, que por suas formas e matérias nos ajudam a dar sentido à criação. Pois as peças de roupa carregam naturalmente histórias e significados de tempo e espaço. Nesse sentido, Sebastien Charles ao comentar os tempos hipermodernos - “(...) a lógica hipermoderna rearranja e recicla o passado sem cessar” - discute diretamente essa prática. Não é à toa que “garimpar” está na moda. Ter, comprar, encontrar um objeto antigo e saber usá-lo de acordo com os significados do mundo de hoje são coisas que estão em voga. Lipovetsky, observador, visionário diz:
“A voga do passado se vê ainda no sucesso dos objetos antigos, da caça a antigüidades, do retrô, do vintage, dos produtos rotulados com um “legítimo” ou “autêntico”, que despertam a nostalgia”. E ainda, “Celebrando até o menor objeto do passado, invocando as obrigações da memória, remobilizando as tradições religiosas, a hipermodernidade não é estruturada por um presente absoluto; ela o é por um presente paradoxal, um presente que não pára de exumar e redescobrir o passado”.
A prática da desconstrução está diretamente ligada a uma postura inovadora, de rompimento com práticas tradicionais e a uma busca profunda de novas possibilidades no vestir. Isso passa por um processo de criação que dá espaço ao imprevisto, ao surgimento de formas inusitadas. Que busca no passado, em formas prontas, o caminho para o novo, a reciclagem dessas formas, reinventando-as.

1.2 Multifuncionalidade e tecnologia em objetos

O desenvolvimento acelerado da tecnologia ruma no sentido de otimizar a relação tempo – espaço dos indivíduos contemporâneos pelo uso de seus objetos. Não é de hoje que todos os investimentos são feitos para a criação e desenvolvimento de objetos cada vez menores, que apresentem múltiplas funções. Como cita Paulo José Moran em seu texto “Novas tecnologias e o re-encantamento do mundo”, “É possível criar usos múltiplos e diferenciados para as tecnologias. Nisso está o seu encantamento, o seu poder de sedução. Os produtores pesquisam o que nos interessa e o criam, adaptam e distribuem para aproximá-lo de nós. A sociedade, aos poucos, parte do uso inicial, previsto, para outras utilizações inovadoras ou inesperadas. Podemos fazer coisas diferentes com as mesmas tecnologias.”
Gilles Lipovetsky dá aos tempos atuais o nome de “Tempos Hipermodernos”, definindo da seguinte maneira: “Hipermodernidade: uma sociedade liberal, caracterizada pelo movimento, pela fluidez, pela flexibilidade” . As características levantadas norteiam o desenvolvimento da tecnologia: se há movimento e flexibilidade, os objetos têm que acompanhar os homens e possibilitar a mobilidade e a comunicação constantemente: assim as coisas são compactadas, cada vez menores e transportáveis. É a era do culto ao multifuncional móvel: celulares, laptops, iPods, câmeras digitais, shampo 3 em 1 em embalagem aerodinâmica, iPhone e muito mais.
Isso revolucionou a relação dos homens com o mundo e com a própria vida. Vivemos na era do tudo ao mesmo tempo agora. Sebastien Charles comenta: “tudo se passando como se o presente conseguisse canalizar todas as paixões e sonhos (...). Com o objetivo de “comprimir o espaço de tempo”, elevando a voltagem lógica da brevidade” . Assim, cada vez mais voltados para o presente, os objetos nos permitem ter uma vida flexível, globalizada e conectada com o mundo. Uma vida extremamente personalizada. A tecnologia nos permite escolhas próprias: toques no celular, fotos pessoais, músicas baixadas pela internet, tudo no sentido de individualizar e personalizar a vida. Isso nos causa o efeito de pessoalidade e autenticidade em relação às coisas e ao mundo.
“A miniaturização das tecnologias de comunicação vem permitindo uma grande maleabilidade, mobilidade, personalização (vide walkman, celular, notebook...), que facilitam a individualização dos processos de comunicação, o estar sempre disponível (alcançável), em qualquer lugar e horário. Essas tecnologias portáteis expressam de forma patente a ênfase do capitalismo no individual mais do que no coletivo, a valorização da liberdade de escolha, de eu poder agir, seguindo a minha vontade” .
Tudo isso caminha em um sentido que favorece a moda: tanto pelo processo de individualização como pelo efeito de mobilidade e mudança constante no indivíduo. No entanto, é possível também começar a se pensar em roupas que possam se modificar ao longo do dia, entrando a moda na lógica da mobilidade e da flexibilidade.
No livro “O Império do Efêmero”, Gilles Lipovetsky diz: “aos gostos modernos pelas facilidades materiais, a satisfação de ganhar tempo, fazer menos esforço (...) o gosto pelo diferente, que precipita o tédio repetitivo, fazendo amar e desejar quase que a priori aquilo que muda” . Nesse sentido, o desejo de mudança também é uma vontade de novidade constante. Mas essa novidade pode, até certo ponto, ao invés de se apresentar sempre com a chegada de um novo objeto, que automaticamente ocupa o lugar do antigo, pode se apresentar pela renovação, a reciclagem, a reinvenção do próprio objeto, podendo ele ser agora alvo de novidades.
José Manuel Moran fecha o seu texto afirmando que as novas tecnologias podem ser um meio de re-encantamento entre o homem (e suas possibilidades humanas) com o mundo. “Nossa mente é a melhor tecnologia, infinitamente superior em complexidade ao melhor computador, porque pensa, relaciona, sente, intui e pode surpreender. Por isso o grande re-encantamento temos que fazê-lo conosco, com a nossa mente e corpo, integrando nossos sentidos, emoções e razão. Valorizando o sensorial, o emocional e o lógico. Desenvolvendo atitudes positivas, modos de perceber, sentir e comunicar-nos mais livres, ricos, profundos. Essa atitude re-encantada de viver potencializará ainda mais nossa vida pessoal e comunitária, ao fazer um uso libertador dessas tecnologias maravilhosas e não um uso consumista, de fuga. (...) O re-encantamento, enfim, não reside principalmente nas tecnologias -cada vez mais sedutoras- mas em nós mesmos, na capacidade em tornar-nos pessoas plenas, num mundo em grandes mudanças e que nos solicita a um consumismo devorador e pernicioso. É maravilhoso crescer, evoluir, comunicar-se plenamente com tantas tecnologias de apoio” . Por isso, uma peça de roupa que possa nos ajudar a reinventar diferentes “eus’ pode nos aproximar também do re-encantamento do mundo.

1.3 Ação criativa e Reinvenção de roupas – Relação pessoa – Objeto

Há quem diga que a moda é uma ditadura, inventada por alguns, que impõe como as pessoas devem se vestir. Essa não é uma inverdade, na medida em que a indústria e o mercado ditam a cada estação as tendências que devem ser seguidas. No entanto “Antes de ser o signo da desrazão vaidosa, a moda testemunha o poder dos homens para mudar e inventar sua maneira de aparecer”. Lipovetsky em seus livros nos mostra como a moda pode ser libertadora, possibilitando que as pessoas expressem livremente sua individualidade. Dessa maneira, a relação entre objeto- roupa e a pessoa pode se fazer de maneira criativa.
Vida é movimento, moda é movimento. As células vivas se refazem rapidamente. O sangue circula, os pêlos crescem, o coração bate, o pulmão respira. Em pouco tempo não somos mais os mesmos. “Se fomos tantas coisas que não somos mais, por que não poderíamos vir a ser aquilo que ainda não fomos? Ou que nem sequer imaginamos que poderíamos ser?” . Rosane Preciosa reflete e nos traz boas perguntas a respeito dessas questões. “A vivacidade do que está vivo se expande em estimulante contato/ contágio com o mundo que nos afeta e por nós é afetado. Ambos articulados processando mutações”. A moda nos ajuda a expressar essa mudanças.
As roupas se transformam na relação com as pessoas. Dependendo de quem veste, como veste, com o que veste, a roupa ganha diferentes significados. Ao mesmo tempo que dá novos significados para aquele que a coloca. A moda nos ajuda a ser mais o que somos agora, a nos aproximarmos da expressão do eu, revelando, através das roupas, para nós mesmos e para o mundo, aquilo que queremos e que estamos sendo.
“Singularizar-se, então, é o contrário de moldar-se de acordo com uma expectativa de subjetividade feita sob encomenda. Significa nela intervir”. Por isso não estamos condenados à vontade de alguns, podemos estar em relação criativa e ativa com a construção da nossa identidade visual. “O que de fato buscamos é captar o tempo todo o que se faz e se desfaz em nós, dar forma ao que vivenciamos em nossa subjetividade”.
Ser criativo significa, nesse caso, se deixar influenciar pelo mundo e pelas coisas, para que depois se possa intervir na coisa e conseqüentemente no mundo. É uma relação de troca. O objeto nos transforma e nós transformamos o objeto – é um vai e vem. “Ainda que do ponto de vista teórico sejam os humanos que codificam a significação das coisas, de uma perspectiva metodológica são as coisas em movimento que iluminam seu contexto social e humano” .
Agir criativamente significa não encarar a moda como uma tendência a ser obrigatoriamente seguida, mas sim se conhecer, conhecer o mundo, as coisas, e estar aberto para vestir aquilo que se está sendo.

2 A Calça Feminina

“CALÇA – Peça da indumentária masculina, comumente adotada pelas mulheres a partir de meados do século XX, indo da cintura até a altura dos tornozelos e compreendendo duas partes separadas que envolvem as pernas. As calças tem exibido inúmeras variações através dos tempos e, embora haja referências de seu uso desde a Antiguidade, a calça da maneira como conhecemos teve seu uso adotado somente a partir de 1830. Pode ser talhada com braguilha ou não, possuir bolsos internos e externos, pregas na frente, fechamento por botões ou zíper e é, sem dúvida, a vestimenta preferida pelos homens e por muitas mulheres contemporâneas. (..)”
Hoje a calça já está absolutamente incorporada ao vestuário feminino. A coisa mais natural para qualquer mulher, de qualquer classe social, de todas as faixas etárias, é usar calças. Sejam elas calcinhas, bermudas, shorts, calças compridas, justas ou largas, meia-calças, altas ou baixas, dos mais variados tipos de cores e de tecidos, estampas, bordados, pedrarias. Seria impossível imaginar a sociedade hoje existindo tal e qual, se as mulheres não usassem calças.
No entanto, as coisas não foram sempre assim. Isso se deve a uma luta e uma série de conquistas que as mulheres, e conseqüentemente seu vestuário, vem passando desde meados do século XIX.
“(...) A moda não faz desaparecer as reivindicações e a defesa dos interesses particulares, ela os torna mais negociáveis” É muito interessante observar como a mudança no hábito do uso de determinada peça pode ser reflexo de todo um pensamento de uma sociedade que está em transformação. E a conquista de uma nova liberdade gera toda uma mudança na estrutura de comportamento, que determina a nova “cara” da sociedade que está se formando.
A forma e a função da roupa estão diretamente ligadas a uma série de valores, a maneira como determinada sociedade se comporta e se pensa em determinado tempo e espaço. No momento em que a mulher conquista o direito ao uso da calça, ela está conquistando muito mais do que a possibilidade de usar uma peça com duas partes separadas que envolvem as pernas, ela está conquistando uma postura, um papel totalmente diferenciado diante da sociedade, do homem e da relação com a própria vida e liberdade. Abrindo novos caminhos para as mulheres e homens que virão.
Assim sendo, o uso da calça comprida pelas mulheres está, em sua origem, diretamente ligado a um mundo que está se transformando, e a uma conquista de liberdade.
É essa conquista que liga o vestir a uma atitude de auto-expressão, fazendo dele um meio, um lugar, pelo qual a individualidade pode se expressar sempre em transformação, colocando o indivíduo como um agente criativo nessa relação.